Thursday, July 17, 2008

R.I.P. 2006-2008
7eternamente7
A eternidade?

Tem a duração de um só momento…

Um pequeno sossego entre dois ecos distintos…

77 doses de pecado conseguem drenar toda uma alma…

77 doses foi tudo o que me propus oferecer-vos…

A última dose foi servida.

Suspiro de alívio e orgulho.

O meu tempo termina aqui…

Grato a todos os que me acompanharam nesta viagem…



Vejo-vos do outro lado da eternidade…



Ariel d'Angoulême

77th*
“O poeta nasce quando a musa morre.
Como a derradeira prova que transforma o homem em vampiro…”
Ariel d’Angoulême

I.
A ti (2008)
Para o meu pai

Há quem já não tenha a quem escrever estas palavras.
Há quem já não tenha quem lhe escreva estas palavras.
Essa é apenas mais uma razão para as escrever aqui e agora.
Não quero lamentar-me por toda a vida ter criado textos compostos de beleza e mentira e não te dedicar um único texto simples e verdadeiro.
Não quero lamentar-me por não ter sequer tentado juntar 3 ou 4 palavrinhas pequenas para te dizer o que de mais verdadeiro tenho em mim.

Sinto a tua falta…
E sinto-a mais que tudo …
Não se trata de saudade de estar contigo…
Apenas de saber que estás bem…
São tão poucos os dias em que te vejo!
Quando os conto só sinto falta de humanidade na minha vida.
Sinto que deixei tudo e todos para trás.
É um facto que se consagra no meu dia-a-dia.
As pessoas trabalham e voltam para as suas famílias…
Eu trabalho e vagueio nesta cidade a que não pertenço na esperança de que um dia possa conciliar tudo.
Esta coisa de lutar por ser alguém distanciou-me de tudo. Até de ser alguém.
Esta coisa de lutar para emendar a quantidade avassaladora de erros que cometi no passado distanciou-me de tudo. Menos dos erros.
Essa quantidade de quedas de que me tentaste sempre ajudar a levantar.
O incentivo para que seguisse os meus sonhos que sempre me incutiste firmemente…
Incontáveis são os sacrifícios que toda a vida fizeste.
O quanto tiveste de desistir de ti para que eu pudesse ser eu!
O quanto tiveste de desistir dos teus sonhos para que eu tivesse os meus!
E a tua voz ao telefone que me inunda de mágoa por saber que o espaço entre a tua voz e a minha é avassalador!
E as mensagens que me envias relatando um qualquer facto que fez com que te lembrasses da minha meninice.
Essas são as que mais abalam a pedra de que me fiz.
E a pedra também quebra:
Amo-te.

II.
Sombra de mim… (2007)

Tropecei na sombra de mim três vezes.
Fixei a visão nas luzes que passavam e deixei cambalear, ao acaso, os meus ouvidos entre sons daquilo a que se chama civilização.
Seja!
Tenho um livro que me pesa na mão esquerda e que me acompanha.
Por vezes, o mesmo, por dias e dias sem fim…
Trago um livro mesmo que saiba que não irei lê-lo.
Não vá o diabo tecer-me a vontade!
É incrível como ler passou a depender da possibilidade de ter ou não vontade!
Às vezes parece que o céu e a terra decidiram trocar de lugar…
Nunca soube o porquê…
Já não sei até que ponto não será o caminho a mover-se sob os meus pés.
O céu sobre a mesma cabeça… como sempre.
Há muito que caminho sem pensar e chego sempre ao local que me aguarda.
Fosse tudo assim!
Uma partida, um destino…
Uma viagem que se não sente…
E sou imóvel.
É o mundo que se molda ao meu passo impensado para me obrigar à rotina diária.
Será sensato culpabilizar o mundo que amanhã me moverá para o trabalho?
Ou culpar-me a mim por ir trabalhar, como manda a sensatez?
Sorrio e esmoreço.
Nunca soube o porquê…

III.
Depois da vida (2005)

Nunca fora pretensão minha esquecer-te.
Antes uma necessidade.
Tão irremediavelmente inconciliável com o meu desejo!
E por isso te mantenho na memória.
Não consigo facultar-me a força necessária para te abandonar e seguir.
Já vários anos passaram e a dor é a mesma de sempre.
E depois existem estas horas negras que tanto valorizo porque te trazem…
Que tanto repudio porque te levam de mim uma e outra vez.
Há anos que te perco dia após dia como se o sofrimento daquele mesmo dia não bastasse.
Continuarei a perder-te. A perdoar-te.
A perder-te…
E essa dor não supera a que me incuto por tentar esquecer-te.
O desassossego é vitalício e corrosivo.
E eu tento viver depois da vida.

IV.
Penumbra (2008)

A sombra chegou…
Como um batalhão marchando sobre as margens do teu corpo.
Repousou na curva das tuas ancas.
Foi-se movendo com o passar das horas, até que o teu corpo absorveu a noite e se fez penumbra.
A tua mão sobre a minha.
A tua mão a guiar a minha.
E os meus olhos a ver na escuridão palpável.
Tremias como se a morte estivesse ali a ver-nos.
Cravavas-me as unhas na carne.
Cravavas-me em ti.
E sussurravas-me ao ouvido
Prova-me… que o amor existe…
E eu provei-te…
Provei-te…
Provei-te…
Provei-te…


V.
A importância de te perder (2006)

...Colocava muito subtilmente os dedos sobre as cordas da guitarra…
Sempre gostaste de me ouvir tocar…
Usava da subtileza… e todo eu me tornava música…
Talvez a mesma subtileza que usava para tocar a tua pele nua…
Talvez a mesma música que te proferia num “amo-te”.
Talvez…
Só para ti… só por ti.
É lembrança. Pura lembrança...
Lembro vezes sem conta o que seria ter-te aqui. Agora.
Penso vezes sem conta o que seria de mim sem o erro de te perder.
Penso vezes sem conta naquela guitarra partida num canto de quarto.
Não mais toquei.
Tenho medo de provocar um som que seja.
De lembrar o teu sorriso por cada nota.
O teu marfim perfeito.
A atenção do teu olhar cativo.
Tenho medo de te perder… na memória.
Tento viver…
Acho que sempre tentei viver.
Mas deixei que me levasses a vida pelo amor que te tive.
Deixei que a derramasses sobre o cetim onde nos enrolamos tantas noites.
As nossas bocas bebendo a sede uma da outra.
O teu peito… palpitante… ao toque destas mãos…
O tempo parava. E o homem sonhava.
A música era o depois. Sempre…
Querias sempre que tocasse algo depois de te tocar.
E ficavas ali… enrolada no lençol, ouvindo…
Com o teu olhar parado por detrás das pálpebras.
E era como se continuasse a tocar-te… vibravas.
E eu não me esquecerei disso nunca.
Não me esquecerei nunca dessa forma de amor que existiu.
Nunca do erro que me fez o que sou.
Saber que o amor é difícil pela importância de te ter perdido.

VI.
Nunca de ti (2004)

Um corpo sombreado
Paredes que se movem como ondas
O esboço de um mundo embaciado
A vida é real por detrás dos vidros

Não me permito pensar em tudo o que me magoa.
Foi bom ter estado aqui.

Suprimias a tua vida por alguém?
Seria alguém digno?
Quantas vidas se moveram assim?
Quantos sonhos perdidos para a eterna morada!

Roubado o tempo.
Descreve-me a doce sensação de angústia.
Já não estou cá.
Nunca mais.

Pudesse eu voltar.
Verificar que afinal… tudo muda.
Ignorem-me.
Prefiro nada.

Absorvi tanto nesse tempo
Tanto que me esqueci
Mas… nunca de ti.

VII.
Amo-te (2006)

Esta noite consegui.
Firmei em mim o desejo e permiti que a minha alma tomasse o impulso que sempre evitei.
As minhas mãos formaram uma concha em redor da tua face.
Deixei que os meus olhos se afogassem na incerteza dos teus.
Do inesperadamente tão natural como respirar deixei que os meus lábios fossem ao encontro dos teus.
Tu permitiste que os meus lábios fossem ao encontro dos teus.
Estagnei a vida na suavidade desse beijo tantas vezes sonhado.
Não consegui conter as lágrimas. Essa felicidade que me denunciava.
Chorei porque te amo e sentir-te em cada gesto é o melhor desta vida.
Os lábios afastaram-se.
Uniram-se os corpos… necessidade incontrolável.
Sentir-te tão minha como me sentir tão teu foi ser.
Ser alguém.
Repeti-o em pensamento: Alguém.
Todo este tempo contive palavras, mas esta noite não consegui:
“Amo-te”.
Tu não disseste nada. Não precisavas.
Não estaria preparado para ouvir o que quer que fosse…
Então não te ouvi dizer nada.
Estagnei a vida na suavidade desse beijo tantas vezes sonhado.
E, como seria de esperar… acordei.
Nada disto teria sido eu.
Não me dói não ter sentido o prazer que os nossos corpos criaram.
Não me doem as lágrimas que me tingiram a alma.
Dói ordenar ao meu corpo que caminhe, uma vez mais, à luz do dia, sem que saibas que te amo.

Ariel d’Angoulême

*Abri novamente, e pela última vez, o baú arcaico e poeirento…
Abri novamente os moleskines…
Escolhi 7 textos para compor este post final. Todos eles (in)acabados…
Enfim… tudo é (in)acabado…

Tuesday, July 15, 2008

A dying wish
3ª parte – “À saudade…”
Para a Antígona

Tentei várias formas de contar esta história…
Mas… por vezes, confundimos sonho com realidade.
Isso acontece quando ambas se parecem tanto.
A verdade? Talvez…
Irreal? É bem possível…
Deixo-vos, então, a muito resumida lembrança de uma noite:

…Veneza, Outono de 1997…

I.
Não diria que está propriamente frio mas a neblina sugere-o e, como tal, a grande maioria das pessoas saem dos hotéis agasalhadas.
Eu próprio me servi de um casaco antes de sair do hotel… e já me arrependi…
Tento ocupar o tempo observando pequenas pontes que se sucedem umas às outras ao longo de imensos e estreitos canais de água.
Depois, da Ponte Di Rialto, observo alguns desses estreitos canais desaguar na grande auto-estrada veneziana: O Canal Grande.
E o belo da arquitectura: Palazzo Dei Dieci Savi, Palazzo Bolfin Manin, Palazzo Bembo… entre outros tanto Pallazos, delimitando os contornos da belíssima auto-estrada.
(Perdoai-me a falta de descrição. Apenas se me aparenta impossível.)
Tudo em Veneza é mágico. Tudo parece irreal.
Tome-se por exemplo o concerto da noite passada:
Abandonara a Chiesa Vidal completamente atónito. Antonio Vivaldi pelos dedos dos Interpreti Veneziani rasgando a atmosfera com a memorável obra "Le Quatro Stagioni".
É impossível descrever um momento desses! Simplesmente.
Torno a aventurar-me pelas ruas estreitas…
As vitrinas, iluminadas, expõe o que dá vida ao mais belo carnaval do mundo.
As máscaras vivem todo o ano… não só nas pessoas, mas nas ruas…
É um carnaval vitalício este.
E o meu tempo aqui se me parece tão curto!

II.
Mais rápido que a minha visão ou pensamento pudessem focar, surge, apressada, uma jovem, arrastando à brisa um vestido vermelho…
Corria descalça. Os dois sapatos balançavam freneticamente na mão esquerda, um deles sem tacão.
Parou mesmo no centro da Piazza S. Marco. Olhava em várias direcções, indecisa quanto à que deveria tomar. Decidi intervir.
“Desculpe menina, está perdida?”
Não me respondeu de imediato… mas um qualquer traço de desespero acabou por falar por ela:
“Senhor, estou perdida sim. E atrasada. Julguei impossível perder-me numa ilha tão pequena!”
“Compreendo. Faço questão de a ajudar, se mo permitir…”
“Muito obrigado, Senhor. Tenho de estar no Teatro La Fenice, daqui a 10 minutos!”
“Nesse caso sigamos já ou perderá o início do espectáculo.”
“Sabe, senhor… de facto, eu faço parte do espectáculo e o primeiro acto é exclusivamente meu… A minha encenadora mata-me.”
“Bem. Sinto prazer redobrado em ajudar uma artista. É uma honra. Por aqui, menina…”

III.
O Teatro La Fenice não ficava muito longe da Piazza S. Marco.
“As ruas são tão idênticas!”, ouvia, num murmúrio.
“Vamos seguir pela margem do Grande Canal e estaremos lá em 7 minutos. Garanto-lhe.”
“O senhor conhece bem Veneza!”
“Nem por isso menina, mas conheço o Teatro. Estive lá há 3 noites. E quando a peça terminou, segui precisamente para a Piazza S. Marco. Hoje fazemos o percurso inverso.”
Sorri.
“Quem vai encarnar esta noite?”, perguntei.
“Oh. É tão difícil dizê-lo. Não sei bem ao certo!”
“Não sabe?”
“Coisas de actriz. Não ligue.”
Sorriu.

… Valaresso…

…Calle Larga…

…S. Maria del Giglio…

…Teatro La Fenice.

“Senhor, nem sei como lhe agradecer! Há alguma coisa que possa fazer por si?”
“Não tem qualquer dívida para comigo, menina. Fiquei, contudo, tentado a vê-la actuar…
Seria possível?”
“Com certeza, senhor. Deixe-me falar com a encenadora. Irei arranjar-lhe um bom lugar.”

IV.
A correria era descomunal.
As pessoas atropelavam-se entre uma imensidão de roupas, luzes, maquilhagens, máscaras, papéis… e uma encenadora histérica.
Esta veio ter comigo e disse apressadamente: “Você vai ficar ao meu lado durante a peça.”
Retirou-se e gritou “3 minutos…”.

O pano correu…
Primeiro acto… Monólogo…
Segundo acto…
Terceiro…
Quarto…
Quinto…
Sexto…
Sétimo e último…

O público, em completo delírio…
Palmas… Bravo!... Palmas… Bravo!... … …
Eu próprio estava completamente atónito.
É impossível descrever um momento desses! Simplesmente.
O pano correu…
Tornou a correr…
Uma vénia…
O pano correu novamente e de vez.

V.
Já não havia necessidade de correria. Lentamente, começaram todos a retirar-se rumo ao camarim. Ela não.
Ela sentou-se no palco, por detrás do pano e, de súbito, desfez-se em lágrimas…
Senti uma vontade súbita de a abraçar e dizer que estava tudo bem, pelo que comecei a dirigir-me a ela.
A encenadora interpôs-se entre nós…
“Deixe estar. É um momento só dela. Deixe-a chorar. Talvez um dia perceba…
Espero que tenha apreciado o espectáculo.”
Não consegui desviar os olhos dela enquanto respondi um “Sim”.
“Obrigado por tê-la ajudado. Ajudou-nos a todos. Sabe, ela é a nossa melhor actriz. Deixe-a estar…”

A encenadora orientou-me para fora do palco…
E ela ficou ali… a chorar sozinha.

Nunca mais tornei a vê-la.
Mas hoje… hoje compreendo o porquê das suas lágrimas.
As máscaras vivem todo o ano. Não apenas nas ruas de Veneza…

Ariel d'Angoulême

1ª Parte

2ª Parte

Saturday, July 12, 2008

Loving you... loving my death...

Abracei-te.
O meu leito fez-se tua morada.
Um dia perder-me-ei para ti.
E não mais viverei em mim.
Nem para mim.
Por mil eternidades… Uma vez mais.
Desde o início que amar-te é como amar a morte.

Abracei-te.
Na esperança amarga de um final.
Meu. Às tuas mãos.
Porque te pertenço mesmo que o não queira.
E porque jamais me terás como te tenho. Esse não ter.
Por mil eternidades… Uma vez mais.
Desde o início que amar-te é como amar a morte.

Ariel d’Angoulême

Monday, July 7, 2008

Poesias pela noite dentro...
A Tempestade (2006)
…faz-me lembrar folhas outonais, amarelas, a cair das árvores e a brindar o chão de ouro.
As árvores, nuas, acenam ao Inverno que se aproxima.

(pausa)

O vento pode levar-te em pétalas outonais, sopros de um sopro…mas é preciso quereres muito. A mim nunca me levou.


Que esse vento, revolto, rume a ti com mais palavras minhas...
Saberás que a tua dor não é solitária…
E esta chuva…
Esta iluminação decadente e efémera…

Olha, relâmpagos! Anda ver a tempestade...sim? Queres um chupa?

Oh! Tempestades... caminhá-las...
Será loucura?
A loucura é o meu estado mais apetecível...

Eu acho que a Loucura é o estádio do Mestre. Não nos pertence, nós é que lhe pertencemos...não é? Podia ser. Gosto do cheiro a terra molhada.

Quero deitar-me no chão...
Nos passeios, na terra...

Cheirar a terra, pegar nela com as mãos e comê-la.
E as árvores, já viste…? Vêem tudo. Eu gostava de ser árvore.
Ruídos que sabem a morango...e nós…assim…
(pausa)
…a vida é um cabaret.


Escolher um chão coberto de folhas... deitar-me sobre elas...
Deixar que chuvas e ventos alterem isso...
E passem as folhas a cobrir-me...

E depois, na calada da noite, ouves barulhos estranhos…ssssshhhhhk...shhhk shhhk...

…o que será isto?! Pergunto…

…são os filhos do Inferno a comerem-te a carne, grgrgrrgrgr…
(gargalhadas)
…E ficares sentado debaixo das árvores, com as folhas a descoserem-se dos galhos? Como um espectáculo de fadas douradas a dançarem diálogos e depois caírem em panos.
À tua chegada tudo se cala… como se tivesses entrado numa sala e todos parassem subitamente para te avaliar…
Depois ouves murmúrios... e as árvores reconhecem-te, anunciam-te e cumprimentam-te agitando as folhas… o vento dança contigo… percorre o teu corpo e sussurra-te ao ouvido...
Basta fechares os olhos e acreditares naquilo que te digo, que é verdade.
Se acreditares, eu digo-te que estás rodeado de salgueiros e pinheiros, e tu começas a sentir-lhes o cheiro...

Sim… E sinto a chuva…
Sinto a roupa pesar-me, molhada, contra o corpo...
Cada gota de chuva vai roubando a secura de cada singular cabelo...
E pequenos canais se formarão para me inundar a face muito em breve...

…As narinas dilatadas, os olhos fechados, a boca entreaberta, a cabeça erguida para o céu, para que nada passe ao lado...

E ainda que perdidos, choramos... de felicidade ou dor...
A dor do céu sucumbirá e aliar-se-á à nossa...

Ou a mistura explosiva de ambos...
E seremos Um Todo, nós e...

E teremos, tal qual um licor, uma doce transparência... embriagando a alma e o corpo…

Sim...o arrepio na espinha, o medo de querer mais, o medo do mundo …eu tenho medo. Fecharmo-nos numa noz ou abrirmo-nos aos céus…

Como uma flor que brota... uma nascente que se inunda de si mesma e se revolta...
Como um pesar saboroso... irreal... sentido tal qual tudo o resto... desigual...
Evitando o silêncio, controlamo-nos, mas nada mais há em nossa volta...
Só mais uma gota, um suspiro que se solta...

Um cheiro, um toque, sentir e desmentir…

A essência eterna jamais saboreada...

Um grito silencioso que se não esgota...

E mais um sorriso tímido que brota...

O perfume único… ser-se criado sem propósito…

E tornámo-nos terrenos e amenos…

E há aquele que nos trespassará a alma e o ócio…

É o tempo que passa sem dar conta que o faz...
E não avisa... Nunca...
Mas teremos sempre estes momentos. Vaguear... sem estar sozinho...

Tens a certeza que não queres um chupa?

Ainda tremo de frio…
Ou de sensibilizado…
Importa?

Chega-te para aqui, não vês que tenho um cobertor?
Pronto, assim não tens frio.
Não percas essa sensibilidade…essa coisa que tu tens e que é só tua.

Que conforto o da palavra!

Não sejas foleiro…! As palavras…são sempre mais as que ardem na lareira às que ficam no papel!
Se pudesse fazer um cobertor de palavras…um cobertor que fosse só nosso, claro.
Palavras suaves, a dançar o curso de um rio calado...aposto que até o poderíamos comer e que saberia a cerejas.

Tal qual o oblíquo pensamento que nos caracteriza...
Não seguindo um caminho directo, mas um de obstáculos...
Palavras impossíveis de guardar eternamente…
Estarei a sonhar a magia de visões que estas palavras traçam?

É a realidade que sonhas…

Visionaste o mesmo?

Então sempre fomos juntos! Eu sempre o soube.

Sim... sabes... não sei quem deu a mão a quem, mas sentimo-la...

Antígona and Ariel d’Angoulême

Wednesday, July 2, 2008

Tens-me...
Decidi ocultar esta alma ferida.
Tal fora o meu tormento!
Escondi-a do mundo… escondi-a de ti…
Privei-a de te rever um só momento.

Depositei o corpo pálido no fundo do mar
Abrigado num seio de sal tumular
Adormecido pelo canto de sereias
(Esperança vaga de o poder aquietar)

O coração… ficou para sempre contigo.
Guardado numa sala de troféus…
Junto aos suspiros de mais querer…
…e no esquecimento… deixou de bater.

Ephemera and Ariel d’Angoulême

Friday, June 27, 2008

Revolvendo o baú arcaico – VII – Onde?
Como é ingrato pertencer a este tempo!
Relembro os lugares que tu pisaste. Comigo.
Piso-os agora… sozinho…
Não te vejo nos lugares dos quais já fazes parte…
Lembro-me deste jardim… Lembro-te perdida nele…
E agora? Tão vazio! Eu.
Lembro-me dos claustros. Contigo.
Abro os olhos e a arquitectura é dor.
Já nem me apraz a arte…
Lembro-me desta grande passagem…
Lembro-te sentada nas escadas que lhe acedem…
Estavas perfeita, como hoje…
Na minha memória…
É ingrato ser só quando já fui algo…
Vim à tua procura… não te encontro…
Corro, impaciente, a outro lugar…
Onde estarás tu?
Onde estarás… tu?
Que é feito da presença que a fotografia guardou destes lugares?
Que é feito da minha vida?
Que é feito da vida que derramou vida sobre esta pedra?
Que é feito da vida que estas letras desposam?
Uma vez mais me ajoelho perante ti e choro…
Onde estarás tu?
Onde estarás… tu?

Ariel d’Angoulême