A dying wish
3ª parte – “À saudade…”
Para a AntígonaTentei várias formas de contar esta história…
Mas… por vezes, confundimos sonho com realidade.
Isso acontece quando ambas se parecem tanto.
A verdade? Talvez…
Irreal? É bem possível…
Deixo-vos, então, a muito resumida lembrança de uma noite:
…Veneza, Outono de 1997…
I.
Não diria que está propriamente frio mas a neblina sugere-o e, como tal, a grande maioria das pessoas saem dos hotéis agasalhadas.
Eu próprio me servi de um casaco antes de sair do hotel… e já me arrependi…
Tento ocupar o tempo observando pequenas pontes que se sucedem umas às outras ao longo de imensos e estreitos canais de água.
Depois, da Ponte Di Rialto, observo alguns desses estreitos canais desaguar na grande auto-estrada veneziana: O Canal Grande.
E o belo da arquitectura: Palazzo Dei Dieci Savi, Palazzo Bolfin Manin, Palazzo Bembo… entre outros tanto Pallazos, delimitando os contornos da belíssima auto-estrada.
(Perdoai-me a falta de descrição. Apenas se me aparenta impossível.)
Tudo em Veneza é mágico. Tudo parece irreal.
Tome-se por exemplo o concerto da noite passada:
Abandonara a Chiesa Vidal completamente atónito. Antonio Vivaldi pelos dedos dos Interpreti Veneziani rasgando a atmosfera com a memorável obra "Le Quatro Stagioni".
É impossível descrever um momento desses! Simplesmente.
Torno a aventurar-me pelas ruas estreitas…
As vitrinas, iluminadas, expõe o que dá vida ao mais belo carnaval do mundo.
As máscaras vivem todo o ano… não só nas pessoas, mas nas ruas…
É um carnaval vitalício este.
E o meu tempo aqui se me parece tão curto!
II.
Mais rápido que a minha visão ou pensamento pudessem focar, surge, apressada, uma jovem, arrastando à brisa um vestido vermelho…
Corria descalça. Os dois sapatos balançavam freneticamente na mão esquerda, um deles sem tacão.
Parou mesmo no centro da Piazza S. Marco. Olhava em várias direcções, indecisa quanto à que deveria tomar. Decidi intervir.
“Desculpe menina, está perdida?”
Não me respondeu de imediato… mas um qualquer traço de desespero acabou por falar por ela:
“Senhor, estou perdida sim. E atrasada. Julguei impossível perder-me numa ilha tão pequena!”
“Compreendo. Faço questão de a ajudar, se mo permitir…”
“Muito obrigado, Senhor. Tenho de estar no Teatro La Fenice, daqui a 10 minutos!”
“Nesse caso sigamos já ou perderá o início do espectáculo.”
“Sabe, senhor… de facto, eu faço parte do espectáculo e o primeiro acto é exclusivamente meu… A minha encenadora mata-me.”
“Bem. Sinto prazer redobrado em ajudar uma artista. É uma honra. Por aqui, menina…”
III.
O Teatro La Fenice não ficava muito longe da Piazza S. Marco.
“As ruas são tão idênticas!”, ouvia, num murmúrio.
“Vamos seguir pela margem do Grande Canal e estaremos lá em 7 minutos. Garanto-lhe.”
“O senhor conhece bem Veneza!”
“Nem por isso menina, mas conheço o Teatro. Estive lá há 3 noites. E quando a peça terminou, segui precisamente para a Piazza S. Marco. Hoje fazemos o percurso inverso.”
Sorri.
“Quem vai encarnar esta noite?”, perguntei.
“Oh. É tão difícil dizê-lo. Não sei bem ao certo!”
“Não sabe?”
“Coisas de actriz. Não ligue.”
Sorriu.
… Valaresso…
…Calle Larga…
…S. Maria del Giglio…
…Teatro La Fenice.
“Senhor, nem sei como lhe agradecer! Há alguma coisa que possa fazer por si?”
“Não tem qualquer dívida para comigo, menina. Fiquei, contudo, tentado a vê-la actuar…
Seria possível?”
“Com certeza, senhor. Deixe-me falar com a encenadora. Irei arranjar-lhe um bom lugar.”
IV.
A correria era descomunal.
As pessoas atropelavam-se entre uma imensidão de roupas, luzes, maquilhagens, máscaras, papéis… e uma encenadora histérica.
Esta veio ter comigo e disse apressadamente: “Você vai ficar ao meu lado durante a peça.”
Retirou-se e gritou “3 minutos…”.
O pano correu…
Primeiro acto… Monólogo…
Segundo acto…
Terceiro…
Quarto…
Quinto…
Sexto…
Sétimo e último…
O público, em completo delírio…
Palmas… Bravo!... Palmas… Bravo!... … …
Eu próprio estava completamente atónito.
É impossível descrever um momento desses! Simplesmente.
O pano correu…
Tornou a correr…
Uma vénia…
O pano correu novamente e de vez.
V.
Já não havia necessidade de correria. Lentamente, começaram todos a retirar-se rumo ao camarim. Ela não.
Ela sentou-se no palco, por detrás do pano e, de súbito, desfez-se em lágrimas…
Senti uma vontade súbita de a abraçar e dizer que estava tudo bem, pelo que comecei a dirigir-me a ela.
A encenadora interpôs-se entre nós…
“Deixe estar. É um momento só dela. Deixe-a chorar. Talvez um dia perceba…
Espero que tenha apreciado o espectáculo.”
Não consegui desviar os olhos dela enquanto respondi um “Sim”.
“Obrigado por tê-la ajudado. Ajudou-nos a todos. Sabe, ela é a nossa melhor actriz. Deixe-a estar…”
A encenadora orientou-me para fora do palco…
E ela ficou ali… a chorar sozinha.
Nunca mais tornei a vê-la.
Mas hoje… hoje compreendo o porquê das suas lágrimas.
As máscaras vivem todo o ano. Não apenas nas ruas de Veneza…
Ariel d'Angoulême
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